Certo dia li no blog de um certo músico uma certa metáfora sobre palitos de fósforos. Coisas efêmeras, belas e fugazes. Uma explosão, a chama rebelde e incontrolável que vira um fogo domesticado. Deu nome a uma canção. A canção não chegou a ser gravada por completo. Após a chama dos instrumentos, a voz não encaixou, a música não encontrou seu espaço. Morreu na empolgação inicial. Virou apenas um esboço, o início que nunca teve fim.
O início. Gosto de começar. Novos horizontes, se não for isso o que será? Traçar metas, elaborar planos, organizar o passado para planejar o futuro. No meu caso esse futuro não é tão longe. Após o planejamento vem a hora de executar. Ah, mas aí fica chato. Os atos se repetem. As metas demoram muito. Hora de traçar novos planos. E de não cumprir os antigos.
Todas segundas milhões de pessoas começam um regime. Toda terça eu começo a malhar. Todo dia eu começo a estudar. Todo final de semana começa um romance em algum lugar. E algum termina, para que o novo tome seu lugar.
De cara me identifiquei com a metáfora do fósforo. Explosão, chama...e depois fumaça. Tudo em poucos segundos. Interessante como observações de atos simples nos levam a grandes reflexões. Diariamente milhares de fósforos são acesos em cozinhas ao redor do mundo. Diariamente meus planos para o futuro que tracei na noite anterior viram fumaça.
Passei a analisar minhas atitudes, e vi que sou uma grande caixa de fósforos. Tudo que faço é efêmero. O que eu quero ser quando crescer? Ah não, crescer demora demais. Médico, advogado? Ah, quando chegar mais perto eu escolho. Pronto, vou ser advogado! E agora? Ah não, agora vou estudar pra concurso. Pronto, continuo sendo um advogado. Até que o fogo queime o dedo.
Nos estudos sou assim. Todos os dias elaboro um roteiro. No dia seguinte desisto, e faço de outro jeito. Não faço nada. O plano é ótimo. Estudar a matéria x pelo livro y, depois a matéria z, depois uns exercícios. Mas antes de mudar de matéria já mudei os planos. E nunca vou pra frente.
Na área afetiva, também sou assim? Definitivamente. Invejo aqueles que conseguem namorar por anos e anos. Nunca consegui esse plural. Na verdade, apenas uma vez consegui mudar a contagem de meses para ano. Apenas por uma semana a mais, mas mudou. Adoro o começo. A conquista, mandar mensagens, esperar a resposta, encontrar, descobrir. E depois que você sabe tudo, o que sobra? O amor? Ih, mas esse é mais dificil encontrar. E isso já é um outro papo.
Não foi proposital - embora fosse esperado - mas o próprio blog virou um exemplo de seu próprio nome. No início, até mais de uma postagem por dia. Ideia interessante, tida em um momento de explosão. Explosão que durou cerca de uma semana. O fósforo se apagou. Quase um mês depois, aqui estou eu. Saudade? Acho que apenas mais uma fuga dos planos de estudo.
No vídeo game sempre gostei do início das sagas. A história, ver como tudo começa, o por quê de ir atrás do vilão...mas depois começa a ficar repetitivo. Bater nos mesmos monstros, usar as mesmas armas. A história já perdeu o sentido. Agora é só chegar no chefão e dar umas marretadas na cabeça. Ah, quer saber, vou começar tudo de novo. Era o máximo montar o time de futebol do zero, subir de divisões, comprar novos jogadores, para chegar na divisão mais alta, com o time mais forte e....perder a graça.
Nunca gostei de rotina. Nunca tive uma rotina fixa por mais de seis meses. Ops, agora tenho. E agora? Rota de fuga? A necessidade do novo me transborda. Será esse um mal da raça humana? Cada dia penso que não. Cada dia vejo mais e mais pessoas acomodadas, assistindo as mesmas novelas, trabalhando nos mesmos empregos, pegando os mesmos caminhos, tendo os mesmos sonhos.
É mais cômodo se esconder na rotina. Fazer sempre o mesmo caminho, comer sempre a mesma pizza, cortar o cabelo no mesmo salão. Enquanto se segue o fluxo não se sai da estrada. E onde leva essa estrada? Será que nos leva aonde queremos ir?
Nos prendemos à rotina. Seria mais fácil fugir dela? A busca pelo novo é o medo de não completar os objetivos? Novos objetivos, novas metas. Ah, não cumpri a última porque mudei, agora vou tentar essa. Será isso o medo do fracasso? Ou será um caminho para evitar essa acomodação prejudicial?
Muitas perguntas...a dúvida é sempre o primeiro passo para qualquer caminho. A busca pelas respostas é que nos leva adiante. A falta de dúvida nos leva à ignorância. Que também pode nos levar a algum lugar, enquanto não percebermos que existem atalhos nessa infinita highway.
A estrada pode até nos levar aos nossos objetivos. Mas os atalhos são bem mais emocionantes.
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